Auto-retrato II

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Escolho-me tantas vezes

Para vivenciar este amor roubado.

É este amor que me fortalece

E faz-me recordar ainda esta criança da janela

De cabelo tão forte, de olhos tão grandes e sorriso tão rasgado.

Sem mágoas, sem rancores, sem corações em pedaços,

E cheia de um perdão tão natural

Que dói a estas gentes ignorantes,

Que fazem de um silêncio,

O julgamento desnecessário.

Escolho-me tantas vezes

Para mergulhar onde todos se afogam

Para vivenciar agora este perdão,

Esta amizade que não quero que se evapore,

Este abraço forte que, já não me sufoca,

E que faz com que este amor floresça.

Este desenlaço que só se vai enlaçar,

Este caminho liso, agora sem pedras,

Este amparo de quedas para mais ninguém se magoar.

Escolho-me tantas vezes

Para eu mesma tropeçar onde toda a gente cai,

Para dizer a mim mesma, quando me deparo em frente a um espelho e dizer,

Que ainda tenho este cabelo forte, estes olhos grandes e este sorriso rasgado,

Que todos os dias me amo,

E com esta paz que eu sinto,

Não há mais nada para ser calado.

Saudade

A revolução de uma saudade

E, o medo que me gela

Impede de me expor e abrir,

Estas mãos e veias.

De novo se estreia

Este raiar de um sufoco de palavras,

Estes muros rabiscados

E estas tesouras que cortam asas.

Ainda guardo este velho sonho

Que me empurra e derruba

Estas muralhas onduladas.

Auto-retrato

Quando sou a criança

Espreitando da janela

Os meus pensamentos,

São como rios submersos.

Parece que,

Depois de implorações feitas

Tudo estagnou, tudo cegou

E é o grito que se esbate.

Quero tanto amar demais

Este amor que me foi ferido,

Esta capacidade de poder sentir

A existência humana livre.

Mesmo assim,

Sinto esta avalanche

De uma pulsação inquietante,

Neste crescimento tão pouco apaixonado

E não mais sendo a criança da janela

Sou mulher para vivenciar

Este amor que me foi roubado.

Baloiços que se comovem

Que deixam marcas rasteiras

E homens que pregam pedras

De memórias intermitentes.

Lapidadas terras e rochas

À luz de luas gordas

Se povoou este mar de mentes

Muitas tão simplória,

Outras de raíz tão nobre.

Também se lima de madrugada

E em manhãs de geada,

Terminando estas gravuras,

Estas existências

De cidades paradas.

Frágeis descobertas

Quantas entradas e janelas,

Quantas histórias proferidas

Nestas varandas descobertas.

Sobre lama e sobre musgo,

Que nasce deste suor de outono.

Dentro de dúvidas e incertezas,

Abrindo olhos a ecos e vazios,

Não se olvidam beijos e abraços

Que, agora, apenas em sonhos

Se mantêm vivas estas inocências.

De telhados frágeis e escassos

E cheiros a mofos e alfazemas,

Já não se escondem mais

Com fechaduras trancadas

Estilhaços de vidros, vasos e madeiras.

Dança, dança

Ela dança livre e vaidosa,

Voando bem alto estas mãos,

Exibe tornozelos e cabelos,

Não deixando rastos, nem nódoas,

Ou linhas de impressão.

Não tem chuva, ou trovoada

Para vedar esta dança,

Esta dança destas saias

Destes pés que não cansam

E que afasta sorrisos perversos.

De luz se compõe esta dança,

Deste cheiro, destas espécies

Que desprezamos.

Que seja infinita esta dança

E não efémera como tudo que é traiçoeiro.

Amores desconhecidos

De amores desconhecidos

Se revolve esta terra

Com pás e enxadas,

Para que se abra espaço

A esta solidão desmedida.

Que homens e mulheres

Sobem tantas escadas

Cheias de defeitos, feitios e sem medidas

Para que de um cume tão imperfeito

Se vejam amores desconhecidos.

Tantos risos, choros e piadas

Declamam e presenciam

Estes amores desconhecidos.

Superam-se guerras e facas afiadas,

Erguendo e moldando fantasias e trilhos.

Sintra

Vento que me empurras,
Que me castigas,
Espojando ferocidades,
Como surras,
Desembrulhando essas origens vadias.
Alçando saias, lenços
E fechando portas.
Ateando chuvas e areias
De tão embutido que estás,
Se abrem janelas vaidosamente mortas.
Depois da grande navegação
E curtas travessias,
Ensaias serenamente
O teu tom mais grave.
Que desalinhos e vazios
Deixas nas gentes palidamente frias.

In a black dress I was

Passing out by the sea,
I can feel your hands
Holding my head,
You are grabbing my hair,
Wrapped in wet sand.

I am sorry, so sorry.

Now you can taste
The salt on my lips.
You are hopeful to find
Any sign of soul,
Any sign of breath.

A bomb, an explosion, an eclipse,
Made me return
To my soaked body.
In a black dress I was
Feeling the pain
Of the last lashes.

How long is long enough?

Seeing ghosts crossing the streets

Arising in the middle

Of the buildings,

Sudden memories come

As getting sudden nibbles.

Once again,

Running out of veins,

Running out of air,

Running out of this liquid

Trying to face these hurricanes.

How long is long enough?

Stop those sharp knives.

I can see those

Machiavellian eyes,

Trying to destroy

My scarce innocence,

That still survives.