Auto-retrato

Quando sou a criança

Espreitando da janela

Os meus pensamentos,

São como rios submersos.

Parece que,

Depois de implorações feitas

Tudo estagnou, tudo cegou

E é o grito que se esbate.

Quero tanto amar demais

Este amor que me foi ferido,

Esta capacidade de poder sentir

A existência humana livre.

Mesmo assim,

Sinto esta avalanche

De uma pulsação inquietante,

Neste crescimento tão pouco apaixonado

E não mais sendo a criança da janela

Sou mulher para vivenciar

Este amor que me foi roubado.

Baloiços que se comovem

Que deixam marcas rasteiras

E homens que pregam pedras

De memórias intermitentes.

Lapidadas terras e rochas

À luz de luas gordas

Se povoou este mar de mentes

Muitas tão simplória,

Outras de raíz tão nobre.

Também se lima de madrugada

E em manhãs de geada,

Terminando estas gravuras,

Estas existências

De cidades paradas.

Frágeis descobertas

Quantas entradas e janelas,

Quantas histórias proferidas

Nestas varandas descobertas.

Sobre lama e sobre musgo,

Que nasce deste suor de outono.

Dentro de dúvidas e incertezas,

Abrindo olhos a ecos e vazios,

Não se olvidam beijos e abraços

Que, agora, apenas em sonhos

Se mantêm vivas estas inocências.

De telhados frágeis e escassos

E cheiros a mofos e alfazemas,

Já não se escondem mais

Com fechaduras trancadas

Estilhaços de vidros, vasos e madeiras.

Dança, dança

Ela dança livre e vaidosa,

Voando bem alto estas mãos,

Exibe tornozelos e cabelos,

Não deixando rastos, nem nódoas,

Ou linhas de impressão.

Não tem chuva, ou trovoada

Para vedar esta dança,

Esta dança destas saias

Destes pés que não cansam

E que afasta sorrisos perversos.

De luz se compõe esta dança,

Deste cheiro, destas espécies

Que desprezamos.

Que seja infinita esta dança

E não efémera como tudo que é traiçoeiro.

Amores desconhecidos

De amores desconhecidos

Se revolve esta terra

Com pás e enxadas,

Para que se abra espaço

A esta solidão desmedida.

Que homens e mulheres

Sobem tantas escadas

Cheias de defeitos, feitios e sem medidas

Para que de um cume tão imperfeito

Se vejam amores desconhecidos.

Tantos risos, choros e piadas

Declamam e presenciam

Estes amores desconhecidos.

Superam-se guerras e facas afiadas,

Erguendo e moldando fantasias e trilhos.

Sintra

Vento que me empurras,
Que me castigas,
Espojando ferocidades,
Como surras,
Desembrulhando essas origens vadias.
Alçando saias, lenços
E fechando portas.
Ateando chuvas e areias
De tão embutido que estás,
Se abrem janelas vaidosamente mortas.
Depois da grande navegação
E curtas travessias,
Ensaias serenamente
O teu tom mais grave.
Que desalinhos e vazios
Deixas nas gentes palidamente frias.

In a black dress I was

Passing out by the sea,
I can feel your hands
Holding my head,
You are grabbing my hair,
Wrapped in wet sand.

I am sorry, so sorry.

Now you can taste
The salt on my lips.
You are hopeful to find
Any sign of soul,
Any sign of breath.

A bomb, an explosion, an eclipse,
Made me return
To my soaked body.
In a black dress I was
Feeling the pain
Of the last lashes.

How long is long enough?

Seeing ghosts crossing the streets

Arising in the middle

Of the buildings,

Sudden memories come

As getting sudden nibbles.

Once again,

Running out of veins,

Running out of air,

Running out of this liquid

Trying to face these hurricanes.

How long is long enough?

Stop those sharp knives.

I can see those

Machiavellian eyes,

Trying to destroy

My scarce innocence,

That still survives.

A morte é sempre intrigante

Meu querido tio… que a tua voz enfraquecida já anunciava o início de um caminho para a paz que procuravas. Que o fim de uma dor tão grande tornou-se, não só o início de uma mágoa ou de um vazio deixado pela ausência do teu corpo, mas também de boas lembranças que até hoje e sempre nos irão fazer soltar grandes gargalhadas.

Tão escassos esses encontros, mas tão harmoniosos. Claro que me refiro à nossa última partida de Sueca! Ainda te lembras da batota que a minha mãe fez!

Eu não sei se acreditas nisto que te vou dizer, mas existem cientistas que, têm provas de que possa existir uma vida depois deste fechar de olhos. Se isso for mesmo verdade, espero que tenhas encontrado aquela luz que toda a gente diz ver nestas experiências de quase morte.

Mas porque é que te escrevo? Diz-me porque é que decidi escrever-te? Tenho a certeza de que irias dar-me uma resposta bem construtiva cheia das tuas filosofias. Porque é que é mais fácil escrever para mortos do que para vivos? Sabes o que acho honestamente? Acho que nunca expressamos genuinamente os nossos sentimentos, enquanto aqueles que amamos cá permanecem em terra… Creio que a verdadeira expulsão deste misto todo de emoções acontece sempre depois da morte. Sejamos sinceros, existem sempre coisas por dizer e por fazer. Mas, porra, ainda não estou satisfeita! Porque é que a morte é tão intrigante e deixa todo este estímulo no ar?

Há muitos anos, quando eu era uma miudinha vieste almoçar cá a casa. Tenho a certeza que te lembras, porque tinhas uma excelente memória. Eu pedi-te para jogarmos xadrez. A meio do jogo viraste-te para mim e disseste ‘porque é que estás sempre a atacar? Também tens que te defender! Tu nunca te defendes, só atacas’. Pois foi, ganhaste. Não, eu realmente não sabia defender-me, nem no jogo, nem na vida e, mal sabias tu do que era. Nem imaginas como isso abriu os meus olhos e olha que frase tão simples me disseste. Como uma tática de jogo pode mudar a minha visão sobre mim mesma. Mas a vida é assim mesmo, um jogo. Umas vezes ganha-se, outras vezes perde-se. Umas vezes estás lá em cima, outras abaixo do chão, enfim… E hoje tio, sei defender-me tão bem!

Perante estas pequenas e valiosas coisas, dói-me imenso saber que escolheste uma morte tão silenciosa. Como é que alguém tão inteligente se abandona a ele própria, desiste dele mesmo e deixa que esta enfermidade tome conta do seu corpo.

Lamento toda esta distância e falta de comunicação, mas acho que entendes, melhor do que ninguém, de que não existem famílias perfeitas.

Espero que tenhas feito esse trilho para um lugar onde te sintas melhor e que nunca te falte essa paz.

Forgiveness

I am arriving full of stories
and thousands of papers in blank,
trying to characterize fear and death
to make myself aware
of this grotesque bubble
made of pain and heartbreak.

Loads and loads of words
just sliding down my body,
So many others so bizarre
coming from my abyss
so ugly, so bloody.

I do not need to make, anymore,
myself believe that
This bubble called world, they say,
Is opening its arms to me
and finally showing
the beauty of the word, the word ‘forgive’